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Radioamadorismo QRT, por CT3FQ

Crónica de uma morte anunciada

Há uma década atrás um conhecido técnico do Instituto de Comunicações de Portugal (agora ANACOM) afirmou várias vezes em público que os radioamadores iam desaparecer a muito curto prazo. Na altura achei a afirmação dum mau gosto primário e foi considerada tão grave que foi tema de conversa durante algum tempo.

Passados estes anos, e agora no novo milénio, sinto-me obrigado a concordar, e até a pedir-lhe tardiamente desculpas por, na altura, não ter percebido verdadeiramente o alcance das suas palavras.

Todos nós já nos apercebemos que começam a surgir os sintomas do declínio, pois passam-se semanas que não se ouve vivalma nos repetidores, passam-se meses sem ouvir as conversas de outrora na radio, e passam-se anos sem ouvir um conhecido nos 40m. Será que se reformou? Afinal onde estão os radioamadores?

fig.1- Onde está a nova geração de radioamadores?

 

A nova geração

Levei algum tempo a perceber as verdadeiras razões e dimensão da morte anunciada. Foi apenas quando conversava com o meu filho que percebi finalmente porque estamos condenados a desaparecer. Um dia, quando estava a fazer alguns contactos em PSK, o Francisco entrou no shack e durante algum tempo ficou interessado no que via. Depois dos contactos fiquei um bocado à conversa monstrando-lhe algumas da outras tecnologias que os radioamadores utilizam. Embora já com 13 anos sempre se interessou por tecnologia e, sinceramente, sabe mais do assunto do que alguns radioamadores que conheço. Depois de alguns minutos de conversa e após ouvirmos alguns QSOs (ele domina mais o inglês do que eu), virou-se para mim e disse-me: "Conversas da treta pai... eu tenho melhor na internet. Nunca ouviste falar no messenger? Consigo falar com qualquer pessoa em qualquer parte do mundo... e ainda por cima lá existem miúdas(...) tás ultrapassado!..."

Miúdas? Ultrapassado? Na altura fiquei irritado com o comentário, mas depois - mais calmo - pensei e fiquei deveras preocupado com o facto da nova geração não ter interesse nenhum no radioamadorismo. Que mais poderiamos acrescentar aos telemóveis e à internet? A terrivel verdade é que fomos completamente ultrapassados pela tecnologia que ajudamos a criar.

 


fig.2- Uma foto, que provavelmente, não se repetirá

A morte do Associativismo


Não tenho dúvidas que cabe às Associações retardar a morte do radioamadorismo e a única questão é apenas saber como. Penso que não vai ser fácil pois, infelizmente, as associações padecem do mesmo mal do hobby que as sustenta: - estão moribundas!

Não conheço a maioria das Associações de Radioamadores, e apenas ousarei comentar factos daquela está mais perto de mim: ficou clara a falta de interesse dos radioamadores pelo associativismo quando na Assembleia Geral da ARRM de 2 de Abril de 2005 estiveram presentes apenas 16 sócios. Onze deles foram eleitos na única lista apresentada, ou seja, segundo parece apenas 5 não votaram em si próprios. Parece anedota, mas não é! E de quem é a culpa? Daqueles que lá foram? Ou dos que , como eu, ficaram em casa? Julgo que o mais importante de tudo é saber porquê é que ficaram em casa.

Este é problema mais importante que os eleitos das Associações devem resolver. Os sintomas são crueis, e provavelmente matarão o radioamadorismo já nesta geração.

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CT3FQ

Carlos Neves, Setembro de 2005

 

 
   

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