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Entre o trágico e o cómico
Na generalidade, as reacções à pergunta maldita, vacilaram entre o imperceptível e o absurdo. Senão vejamos.
É inaceitável que se afirme que o número de sócios de uma associação seja um segredo que não pode ser divulgado. Nunca na vida, vi isso escrito em qualquer estatuto de qualquer associação e apenas as sociedades secretas, como a maçonaria, mantêm esses números no segredo dos deuses.
Não sejamos ingénuos, pois todos nós nos apercebemos que este encobrimento, é um modo de esconder a verdadeira dimensão de qualquer associação regional. É fácil também perceber que muitas associações empolam as suas dimensões, recorrendo à omissão dos números e a campanhas baseadas no show-off, ou seja, as estatísticas boas divulgam-se e as más escondem-se. E por isso não é estranho ver publicamente algumas pequenas associações regionais deste País a se auto denominarem as maiores de Portugal.
É ininteligível que se tente passar a mensagem que o número sócios é irrelevante para qualquer análise. Então como se pode qualificar ou quantificar uma associação no que concerne à sua representatividade? Existe algum outro parâmetro que permita distinguir quantitativamente as associações? Será que uma associação com dez sócios deverá ter o mesmo peso político do que uma com cem? Isso não seria falsear a democracia representativa?
Ficamos assim sem saber quantos associados existem em Portugal, ou ainda, quais são os factores de sucesso ou insucesso em determinada zona geográfica. Ficamos sem saber quais são as maiores associações e em que zona geográfica do País estão. A quem serve este estado de ignorância?
Mas mais grave do que a omissão dos numeros são os casos em que o número real de sócios é curiosamente igual ao número dos seus dirigentes. Estes casos são, sem sombra de dúvidas, inconstitucionais e moralmente intoleráveisl. Como se pode sequer admitir que um órgão, como a Assembleia-geral, se resuma práticamente a um corpo auto-eleito que vota em si próprio? Isto não é um sintoma doentio de partido único, tão combatido pelos emergentes democratas do nosso País? Será que a democracia é um direito para uns e um dever de outros? Será que não será a altura para alterar a legislação sobre o associativismo e eliminar este embuste associativo?
Todos nós sabemos, e não há como esconder, que algumas associações em Portugal foram criadas por birras de demissionários de outras associações. Todos sabemos que há uns anos atrás, quando as diferenças ideológicas de alguns dirigentes entravam em choque abandonava-se logo a associação, e com meia dúzia de amigos, criava-se logo uma outra nova. Muitas vezes com o objectivo único de combater a primeira. É mentira?
Será que, passados tantos anos, e depois de algumas mudanças recentes de mentalidade, se justifica ainda o elevado número de associações e este clima de guerra fria? Será que os sócios dessas associações ainda não se aperceberam que alguém contou mal a história? Todos sabemos que o modo mais fácil e demagodo de manter a coesão num pequeno grupo é inventar um inimigo no exterior. Felizmente também sabemos que essa estratégia tem cada vez menos crentes. A quem serve esta guerra? Ao desgraçado do radioamador que - para não se dar mal com ninguém - tem de se inscrever em quatro ou cinco associações?
Sejamos por isso corajosos e admitemos que existem associações a mais e muitas já em estado de agonia, e que a única hipótese é fundirem-se com outras para se conseguirem manter. Meus senhores, a solução não é injectar dinheiro do próprio bolso - como eu próprio já o fiz- pois isso só adia o inevitável, a solução passa por pensar numa estratégia comum que permita unir o País em torno de um único objectivo.
Não seria mais inteligente fundir a Associação A com a B e criar uma ainda mais forte e coesa? Afinal, o que é que a Associação A tem, que a B não tem? Dirigentes a mais e sócios a menos?
Meus senhores, diga-se o que se disser, os sócios são a única mais valia das Associações e infelizmente verifica-se pelas razões que acima se referiu, que a maioria deles anda distante do movimento associativo. E se nada for feito, esta é a realidade que vai matar o associativismo em Portugal.
Fico triste com tudo isto, mas continuo convicto das minhas ideias, e sinto hoje na pele o que Galileu sentiu quando foi condenado por heresia.
- Mas "Eppur si Muove"... |