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Bit a bit, por CT3FQ

Os primeiros passos

Há quase duas décadas tive oportunidade de, numa acção de formação levada a cabo pela ARRM, demonstrar a mais de uma vintena de colegas, a utilização de algum dos modos digitais em voga na altura como o PACKET, o RTTY e AMTOR (FEC e ARQ)...

Tinha acabado de adquirir um KAM ao Carlos Sousa (CT1CUM) - que na altura custou-me uma pipa de massa - e usei para a formação um PC 8088 da Peacock com 640Kbytes RAM com, um Disco de 20MBytes em MSDOS com imenso espaço livre (o que é dificil hoje em dia).

Lembro-me, ainda, que a minha preferência ia para o AMTOR. Na altura, achava fascinante este modo de transmissão digital e por isso fui dos primeiros CT3 a utilizá-lo em HF. Recordo-me também que nos 144.675MHz, e durante algum tempo, fui a unica estação CT3 com um NODE e um Gateway para HF.

fig.1- O KAM série 11150, com mais de 15 anos, que ainda hoje me é muito util

 

Gosto da modéstia, mas não tenho dúvidas, que foram estes os primeiros passos que nos permitiram, em pouco tempo e durante alguns anos, possuir uma rede de packet muito bem estruturada. A ARRM possuia, já na altura, dois Kantronics Data Engines a 9600 Baud "linkados" em UHF através de dois D-4, que permitia ligar o Sul da Ilha ao Norte. Foi também nessa altura que criamos a BBS CS3MAD para o transporte de mensagens. Tinhamos, ainda, um dos primeiros weathernodes de Portugal colocado no Pico do Areeiro que infelizmente sofreu varias avarias (hoje desconheço se todos estes equipamentos ainda pertencem à ARRM, se ainda continuam activos ou se estão avariados).

Enquanto durou a rede de packet foi um sucesso, pois nunca é demais lembrar que , a internet na altura era ainda uma hipótese remota inacessível à maioria dos radioamadores, por isso o packet foi durante alguns anos, um meio eficaz para divulgar informação através da BBS.

Infelizmente, com o avanço tecnológico da internet, as redes actuais de packet tendem a tornar-se obsoletas e, sinceramente, não entendo como ainda existe nos dias de hoje tráfego de mail em HF a 300 Baud.

Embora o packet esteja moribundo, os modos digitais vão continuar a sobreviver, e melhor do que isso, a evoluir!

 

fig.2- Impressionante o tamanho do PK-900 em relação ao KAM

O primeiro amor!

Felizmente, ou infelizmente, a tecnologia evolui a uma velocidade descontrolada deixando para trás alguns dos melhores equipamentos dos anos 90. Claro que isso não me impede de ter a convicção que alguns dos velhos "teenagers" ficarão na nossa memória para sempre. Quem conseguirá esquecer o KAM, o PK-232 ou problemático TNC da MFJ?

Todos sabemos que o primeiro amor é quase sempre platónico! A minha paixão pelo PK-900 surgiu quando em 1991 vi numa QST a publicidade da AEA. Digamos que foi amor à primeira vista, pois o PK-900 era considerado o "Rolls Royce" dos amantes das comunicações digitais, sendo o unico que podia operar simultaneamente com as duas portas em modos distintos e ainda vinha com a possibilidade de expansões digitais futuras, ou seja, o sonho para qualquer tarado digital. O grande senão desta minha paixão era o preço, pois custava mais de $US 700 o que era impensável na altura.

Foi preciso esperar 13 anos para conseguir encontrar um PK-900 no ebay por cerca de 50 euros que - para minha felicidade - quando me chegou às mãos trazia grátis a board opcional dos 9600 Baud. O equipamento era de 1992 e estava em bom estado, com apenas alguns riscos na caixa. Pintei a caixa, substitui a bateria de Lítio, fiz os cabos e testei-o.

Logo nos primeiros testes verifiquei que - comparativamente ao KAM - a recepção de RTTY, AMTOR e Pactor em HF, além de ser mais sensível, conseguia receber mais 25% de caracteres correctos. Estava provado que toda a fama do PK-900 era real!

A unica vantagem que encontrei do KAM, em relação ao PK-900, resumiu-se à excelente barra de leds que torna muito mais fácil a sintonia dos sinais.

 

 

A terceira vaga digital

Com a banalização da Informática surgiram novos modos digitais fabulosos. O PSK31 (Phase Shift Key a 31 Baud) , foi sem dúvida, a terceira vaga das comunicações digitais. Este modo permite que num espaço de 1KHz estejam dezenas de estações a comunicar. Embora este modo não seja o meu preferido - pois como o RTTY não tem nenhum protocolo de correção de erros - foi pela sua simplicidade aquele que mais adesão imediata teve por toda a comunidade. O maior tráfego de QSOs PSK31 situa-se nos 14.070.15 MHz onde se encontra constantemente dezenas de estações.

Dos novos modos, o meu preferido é o MFSK por ser aquele que - na minha opinião - além de ocupar uma largura de Banda sensivelmente similar ao RTTY , tem correção de erros, ou seja, do outro lado da comunicação não surge "lixo"! O MFSK é aquele que a tem a melhor relação sinal ruido de todos os que experimentei. Os interessados poderão encontrar sinais de MFSK à volta dos 14.079,0 MHz USB.

Fig. 3- A Fabulosa Creative 24bit USB com um SNR de 100dB

 

 

De todos, o modo mais intrigante é o MT63. Este modo é o mais complexo e utiliza algoritmos de DSP na desmodulação mas infelizmente não tem muitos adeptos, pois passa despercebido a meio do ruído. Embora imune ao ruído branco sofre muito com a presença de outros sinais e possui uma largura de banda que considero muito grande (1KHz) para a Banda de Amador. Nos 20 metros podemos encontrar alguns sinais de MT63 centrados em 14.109,5MHz, mas é nos 80 metros que é preferido pela maioria dos radioamadores, pois é frequente conseguir estabelecer um QSO com apenas 5 watts.

Aliada a esta revolução da transmissão digital esteve o desenvolvimento massificado de software e a utilização, em numero cada vez maior, das placas de som internas dos computadores para modular e desmodular os sinais dos radios. Presentemente algumas placas de som conseguem melhores prestações que qualquer KAM ou PK-900.

Das várias que experimentei, a minha preferida é a Creative Live 24bit USB que tem um impressionante SNR de mais de 100dB! Esta placa de som pode-se encontrar em qualquer loja de informática por cerca de 50 euros e já vem com controlo remoto (RM-1500), que permite aos comodistas (como eu) controlar a maioria do software. Mas, como sempre o software da Creative deixa muito a desejar e é preciso alguma paciência para conseguir encontrar e instalar o melhor controlador e obter assim o rendimento máximo do som e do controlo remoto. Para evitar o RF recomendo ainda que se coloque uns condensadores de 10pF à terra nas entradas/saídas da Live 24, ou ainda uns choques (ferrites) de RF.

O mais estranho de toda esta evolução digital é ainda o uso do RTTY. Este fenómeno é daquelas coisas que é muito dificil de explicar e perceber pois o RTTY é um modo digital mais que obsoleto. Tenho a certeza que esta anormalidade deve-se ao facto de existirem ainda grandes concursos de RTTY que conseguem manter ainda a chama viva.

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O melhor software

O MiXW é, sem dúvida, o melhor software multimodo do mercado. Este software foi desenvolvido em 1992 por UT2UZ e desde esse ano tem sofrido muitas e fantásticas evoluções. O MixW permite praticamente operar em todos os modos digitais conhecidos. O próprio log interno é melhor que o do Writelog sendo o envio de e-qsl automático. O único senão na versão que testei é não ter a hipótese de imprimir directamente labels por isso utilizo a exportação em formato ADI para os normais programas de impressão de etiquetas de cartões de QSL.

Para funcionar com o MIXW não é necessário cabos especiais. Se o radio suporta CAT ( Computer Aided Transceiver) basta um cabo RS232 (null modem) e dois cabos de audio (TX e RX) ligados à placa de som. Para uma adaptação perfeita do audio é necessário possuir um interface que adapte as diferentes impedâncias. No mercado existem alguns modelos de interfaces cujos preços variam entre o acessível (< 50 €) e o absurdo( >200 €). Qualquer colega com um pouco de paciência e dois transformadores (basta um!) de impedâncias consegue os mesmos resultados.

 

 

Para os impacientes, basta utilizar o seguinte esquema de ligação entre o radio e a placa de som. Bastam uns centimetros de cabo de audio blindado, e algumas fichas, para entrar rapidamente na tecnologia digital:

O mais problemático do esquema é a adaptação do nivel do audio (i.e. impedância) que sai da Placa de som para a entrada de audio do radio. Para os que têm mais jeito com o ferro de soldar basta soldar mesmo no interior da ficha jack uma resistência de 100 ohms entre a massa e o pino central e depois uma resistência de 10K em série. Alguns radios possuem entradas AFSK atrás não sendo necessário utilizar a entrada de microfone.

Com alguma paciência,e a pedido de um colega, traduzi a maioria dos menus do MIXW. Se eventualmente algum colega estiver interessado na tradução envie-me um e-mail que eu disponibilizo sem problemas o link para download. Note-se que a tradução não é perfeita, e é apenas do programa EXE devendo para o correcto e legal funcionamento ser adquirida licença ao seu autor.

Para quem gosta, ou quer experimentar os novos modos digitais, recomendo este programa por ser o único que inclui quase todos os modos não sendo por isso necessário perder tempo a mudar de software sempre que se quer mudar de modo.

Embora exista a fonia, é sempre bom não nos esquecermos que Bit a Bit também se comunica...

SK

 

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CT3FQ

Carlos Neves, Junho 2005

 

 
   

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